Nota de falecimento do Prof. Francisco Benjamin de Souza Netto (1937-2019)

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No dia 15 de maio de 2019, recebemos, com grande pesar, a notícia do falecimento do prof. Francisco Benjamin de Souza Netto.

Francisco Benjamin aposentou-se, em 2007, como professor do Departamento de Filosofia da UNICAMP. Em seus muitos anos de docência, lecionou também em boa parte de nossos cursos de Filosofia, entre eles, os da PUC-SP, da UNESP, do São Bento, da USP.

Foi o primeiro professor de História da Filosofia Medieval do Departamento de Filosofia da USP. E um dos fundadores, em 1992, do Centro de Estudos de Filosofia Patrística e Medieval de São Paulo (CEPAME).

Dedicou sua sólida e erudita formação filosófica principalmente ao estudo da tradição platônica. Platão, por certo, como também o neoplatonismo de Plotino e, em particular, de Agostinho, dos Padres Gregos do século IV. Além de, em grande medida, empreender a difícil leitura do que conhecemos sobre a literatura médio-platônica.

Formou grande número de alunos e orientandos. Se em sala de aula se permitia, em busca da expressão precisa do pensamento, angustiantes pausas de mais de um minuto (que duravam uma eternidade), ao cabo das quais voltava ao exato momento em que interrompera a frase, seu dom era o das conversas pessoais, generosamente abertas a quem o demandasse, sem tempo para terminar e nas quais se aprendia o que nos escapava na leitura.

O Professor Doutor Francisco Benjamin de Souza Netto foi também Dom Estêvão, OSB, monge beneditino que, embora pouco afeito à estabilidade monástica, como é fácil perceber, soube honrar o que de melhor há na grandiosa tradição transmitida pelos velhos monges alemães do Mosteiro de São Bento, aos quais devia sua formação.

Além de professor de nossos cursos de Filosofia, foi professor em diversos Seminários, católicos e protestantes, em particular naqueles que foram sendo sucessivamente fechados nos anos 70 do século passado.

Tento sido militante da Juventude Universitária Católica (JUC) em seus anos de estudante, nunca deixou o firme compromisso com a luta pelas liberdades democráticas. Foi assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, simultaneamente, do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), nos tempos do Cardeal Arns e do Reverendo Jaime Whrigt.

Não por acaso, na bela e solene Missa de Réquiem celebrada no Mosteiro em suas exéquias, estavam, igualmente saudosos, amigos, companheiros, colegas de muitas universidades – confessionais e laicas–, discípulos, estudantes. Seu velório foi feito pela família.

A harmonia que Francisco Benjamin soube emprestar a tantos papéis é bem exemplificada pelo tema de sua tese doutoral: Platão, sim, que tão bem pode convir ao rigor de análise do professor como à erudição do monge, mas melhor que seja sobre o pensamento político do autor; em particular, tema candente, ontem como hoje, sobre O problema da censura no pensamento político de Platão.

Por José Carlos Estévão