Ontem, às nove horas, recebi a mensagem do Fábio: “ sua amiga se foi nessa manhã”. Uma dor aguda nessas palavras e logo o seu nome ,Irene, me veio tão vívido como o tempo que passamos juntas, antes e agora. Tantas coisas de volta, você, Irène--Célimène, por causa da peça de Molière, e também ”A Casa de Irene” e a música de Nico Fidenco. Nossas conversas e seu humor tão alegre e cheio de leveza estarão sempre comigo e com todos que conviveram com você.
Nós nos conhecemos estudantes em 1968, em meio a passeatas político-amorosas da Universidade que você eternizou em seus escritos e estudos, como “A Universidade da Comunhão Paulista”, como também a rua e o prédio da Maria Antonia. A “ Maria Antonia” se tornou um emblema histórico, como “ uma rua na contramão” , como você, com tanta felicidade, a nomeou.
Com seu prédio de colunas à grega, ele era uma “Academia de Platão”. Academia de que você foi a cronista. Essa rua se tornou mágica por suas reflexões, como também esse tempo que você pesquisou e transmitiu em publicações, colóquios, conferências; e em encontros nos barzinhos ou no Paris Bar ao lado da Biblioteca, à época, Biblioteca Municipal. Nos anos 1970, já como professora, da Pedagogia às Ciências Sociais, continuamos juntas no Clube dos Professores na Cidade Universitária ou em conversas no cafezinho durante os intervalos das aulas; no Guarujá, em férias; em festas de nossos departamentos;em Ouro Preto, no colóquio sobre Memória e História, e em tantos outros lugares e círculos de amigos.
Sua maneira de ser,discreta e cheia de Eros, estava em suas aulas precursoras, quando, antes mesmo de que nós, professores do Departamento de Filosofia, dedicássemos cursos a Foucault, você já o fazia. Não só Foucault, mas também Vernant, Derrida, Lacan. Não por acaso, você foi se dirigindo à psicanálise, dando continuidade a suas reflexões sobre o passado, a memória e os traumas pessoais e históricos.
Trauma que aconteceu em sua vida ao você contrair Covid que, limitando seus movimentos, não teve nenhum poder sobre a vida de seu espírito. Nem sobre o encantamento e o entusiasmo nas vindas de sua netinha Martina, se deitando a seu lado na cama com vivacidade e graça. Também não interferiu na felicidade de ter seus filhos Maurício e Fábio, que estiveram sempre –e tão prontamente- acalentando e cuidando de você e de todas as coisas.
Um dia de 1995 você me falou que estava lendo o livro A Hospitalidade, uma entrevista de Derrida. Foi pela primeira vez ,e para não mais esquecer, que eu ouvi você falar da hospitalidade incondicional, que é a forma sublime da phylia. Por essa amizade que continuará, você não partiu, você se tornou encantada.
Olgária Chain Feres Matos
(05/08/2025)