Auditório Beta - A2 (UFABC)
Programação
Mesa 1
Fátima Evora (UNICAMP)
Edgar Marques (UERJ)
Ivã Gurgel (USP)
Luciana Zaterka (UFABC/UFPR)
Mesa 2
Ricardo Terra (USP)
Ivan Domingues (UFMG)
João Carlos Salles (UFBA)
Luiz Repa (USP)
INCT - Ciência e Democracia
UFABC | USP
Orgs. Luciana Zaterka (UFABC) e Luiz Repa (USP)
Negacionismo científico e crise da democracia: verdade, ciência e esfera pública
Luiz Repa – USP/CNPq
A esfera semipública: o impacto da digitalização sobre a política e a ciência
A participação tem por objetivo investigar o diagnóstico dos efeitos políticos da digitalização da esfera pública, tal como formulado por Jürgen Habermas em sua obra mais recente e por outros autores contemporâneos, para então relacioná-lo ao fenômeno do negacionismo científico. Trata-se de avaliar o impacto que a digitalização da esfera pública produz sobre os processos de legitimação democrática, na medida em que ela favorece a fragmentação do debate público em inúmeras câmaras de eco, dificulta o tratamento discursivo dos dissensos e amplia os usos políticos da desinformação na interface entre ciência e política. Nesse contexto, a noção de “esfera semipública” procura designar espaços comunicativos que, embora publicamente acessíveis, tendem a operar segundo lógicas de segmentação, sustentadas em algoritmos, que reforçam constantemente consensos prévios e identidades artificiais. Para tanto, será igualmente importante considerar processos de erosão da esfera pública anteriores à digitalização, como a concentração das empresas de mídia, bem como o modo como a ciência se torna um fator político e econômico no capitalismo contemporâneo.
Ricardo Terra (USP/Cebrap)
Universidade, Ciência e Técnica em um país dependente.
Nesta exposição, serão abordadas algumas questões relativas à universidade, à ciência e à técnica em um país dependente, tomando como referência central o caso brasileiro. O ponto de partida será a análise da reforma universitária realizada de modo incompleto durante a ditadura, para em seguida, discutir as especificidades assumidas pela ordem neoliberal em países periféricos, com especial atenção à universidade brasileira. Nesse contexto, será examinada a ampliação do sistema universitário por meio da criação, muitas vezes sem planejamento adequado, de novas universidades públicas, combinada a estratégias típicas do neoliberalismo progressista, como o FIES e a concessão de bolsas de estudo em instituições particulares. A exposição também tratará da miopia das universidades em relação à pesquisa tecnológica e da necessidade de estabelecer vínculos mais consistentes entre a produção científica e o sistema produtivo. Por fim, serão discutidos o mito de uma formação voltada apenas para um espírito crítico vazio, sua relação com a democracia efetiva, e a fragilidade da universidade diante do avanço do negacionismo científico.
Ivan Domingues (UFMG)
Esfera pública, Democracia e República – o Brasil Contemporâneo, o Ancien Régime e a Agenda da Ética Pública Republicana
O escopo é pensar as grandes articulações entre a ciência e a democracia, tendo como contexto e objeto o Brasil contemporâneo. E o desafio é levar as luzes da filosofia a essas matérias, evidenciando: numa vertente da pesquisa, a volta do recalcado, justamente o ancien régime colonial e escravista do qual nunca saímos totalmente, lastreado pela hipótese histórica auxiliar segundo a qual o iluminismo europeu nunca espalhou suas luzes solares em nossas terras, no máximo luzes bruxuleantes nas candeias e lamparinas em Ouro Preto – e eis que o ancien ou o velho que imaginávamos desaparecido está de volta, como bem mostrou a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018 e a crise sanitária da Covid 19 em seu governo; em outra vertente, a urgência de pavimentarmos um caminho que leve ao cruzamento da democracia e da república em nossas terras – de resto, um caminho que custou a se desenhar e finalmente a se cruzar no hemisfério norte, só o fazendo depois das grandes revoluções americana e francesa, ao longo do século XIX, e mais ainda no século XX, reservando ao século XXI o tempo do colapso das democracias representativas liberais, ficando em seu lugar as autocracias de nossos dias.
O BINÔMIO DE NEWTON E A VÊNUS DE MILO
Notas sobre imaginação filosófica e divulgação científica
João Carlos Salles (UFBA)
A divulgação científica parece ser um dos antídotos do negacionismo. Não lhe traz a cura, decerto, mas pode minorar alguns dos seus efeitos e talvez aplacar algumas dores. Entretanto, se a ciência ela própria não consegue estabelecer padrões de racionalidade capazes de orientar políticas públicas, nossas ações de comunicação tendem a ter um efeito precário e mesmo inócuo. De todo modo, se bem feita, a divulgação científica pode ter um duplo efeito alvissareiro. Ela não se volta, afinal, apenas ao grande público, prestando serviços ao próprio trabalho acadêmico interdisciplinar e, com isso, criando condições de acesso e vocabulário comum para grandes debates, para além do hermetismo e do isolamento das diversas disciplinas. Por outro lado, caso não esteja restrita a veículos especializados e esteja alicerçada em política pública de mais largo alcance, ela pode ter um papel singular na constituição da esfera pública, interferindo em espaços de debate com alguma relevância política e social. Assim como negacionismo científico e obscurantismo político amiúde se entremesclam, podemos antever alguma associação fecunda entre boa divulgação científica e democracia, mas convém sempre lembrar que tais associações não são automáticas, uma vez que informação científica e recursos tecnológicos os mais sofisticados associam-se também a degradações culturais. Nossa apresentação, bastante restrita, não pode enfrentar, é claro, esse conjunto de questões. Quando muito, a partir de uns poucos exemplos, levanta questões acerca apenas de um tópico, que todavia julgamos relevante, a saber: o significado de uma divulgação científica bem feita e de como, para sua qualidade e alcance, dependemos de certa imaginação filosófica.
Fatima Évora (UNICAMP)
Ciência sob ataque: uma longa história da resistência
O objetivo desta apresentação é discutir alguns episódios da história da ciência nos quais se observa a tentativa de silenciamento da investigação científica, ou de intervenção em seu desenvolvimento, por fatores externos ao próprio campo da ciência.
Minha análise se restringirá a determinados momentos históricos em que a ciência foi alvo de ataques externos. Busco neste escopo compreender em que medida tais ataques retardaram ou condicionaram seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, interessa-me examinar a capacidade de resistência da ciência diante dessas formas de constrangimento, censura ou intervenção.
No âmbito dessa discussão, darei particular atenção à condenação promulgada, em 1277, pelo bispo de Paris, Étienne Tempier, de 219 proposições e argumentos de caráter determinista, extraídos da filosofia de Aristóteles ou nela fundamentados. Essa condenação foi precedida por uma série de severas críticas eclesiásticas aos livros aristotélicos, sobretudo na primeira metade do século XIII, em razão da aparente incompatibilidade entre sua cosmologia e as Escrituras. Já em 1210, por exemplo, havia sido proibido em Paris o ensino da física e da metafísica aristotélicas. Os livros de Aristóteles dedicados à filosofia natural — os chamados libri naturales —, assim como os textos de seus comentadores, não deveriam ser lidos em Paris, pública ou secretamente, sob pena de excomunhão.
O que orienta esta reflexão é, em última instância, uma concepção de ciência como atividade autônoma. Trata-se de defender que a escolha entre teorias alternativas deve se dar a partir de critérios internos à própria racionalidade científica, isto é, com base em valores epistêmicos, e não por imposições externas de natureza religiosa, política ou ideológica.
Ivã Gurgel (IFUSP)
A crise de confiança nas ciências na era digital
O negacionismo científico costuma ser atribuído a uma postura epistemológica ingênua, como se resultasse apenas de uma compreensão inadequada da ciência. Em contraposição a esta percepção, este trabalho propõe interpretá-lo como produto das dinâmicas sociais contemporâneas, muito marcadas por formas de estruturação social baseadas no uso de novas tecnologias, o que denominamos de era digital. A análise baseia-se em uma interpretação dialética da história e na concepção de modernidade de Anthony Giddens. Segundo essa perspectiva, a modernidade está fundamentada em três pilares: a valorização iluminista da razão, a organização política baseada na democracia liberal e a estrutura econômica do capitalismo industrial. Entretanto, há amplo consenso de que o projeto moderno não se realizou plenamente, o que leva a duas críticas principais: aqueles que defendem a atualização dos princípios iluministas e aqueles que rejeitam a própria modernidade, propondo alternativas a ela. Assim, argumentamos que a sociedade contemporânea não é marcada pela pós-modernidade, mas por uma tensão dialética entre modernidade e não-modernidade, isto é, defendemos que nossa época se caracteriza pela aceitação simultânea da modernidade e pela crítica às suas bases. A partir desta matriz teórica, busca-se caracterizar o negacionismo como um fenômeno em que novas formas de produção de conteúdo baseadas em meios digitais concorrem com a ciência, aqui representante da modernidade.
Edgar Marques (UERJ)
Sobre a irracionalidade de crenças
Uma crença consiste, de acordo com a concepção funcionalista, em um estado interno representacional cuja conexão a determinados inputs sensoriais, a outros estados internos representacionais e a estados internos volitivos torna racionalmente compreensível a realização de uma certa ação. Crenças são atribuídas, assim, a sujeitos no contexto de uma racionalização de seus comportamentos. Não obstante, caracterizamos frequentemente certas crenças como sendo irracionais, o que representa certamente um embaraço de natureza conceitual, uma vez que, a princípio, não pareceria haver a possibilidade de crenças irracionais. Pretendo, em minha apresentação, refletir acerca das noções de crença e de racionalidade de maneira a tornar claro em que medida a ideia de crenças irracionais não consiste em um oxímoro.
Luciana Zaterka (UFABC)
Da confiança à ignorância: ciência, testemunho e esfera pública
O negacionismo científico costuma ser explicado pela desinformação, pela polarização política ou pelo excesso de informações disponíveis. Este artigo sustenta que tais fatores não explicam suficientemente o fenômeno. Argumenta-se que o negacionismo é expressão de uma crise mais profunda: a erosão das relações de confiança que sustentam a produção coletiva do conhecimento científico. Para desenvolver essa hipótese, reconstrói-se inicialmente a constituição da filosofia experimental no século XVII, destacando o papel do testemunho e de instituições como a Royal Society na construção da credibilidade científica. Em seguida, discutem-se os mecanismos contemporâneos de produção da ignorância, mostrando como a linguagem e a autoridade da própria ciência podem ser mobilizadas para fabricar dúvida e enfraquecer consensos científicos. Por fim, argumenta-se, a partir da epistemologia social de Helen Longino, que a objetividade científica depende de práticas institucionais de crítica, pluralidade e confiança pública. O enfrentamento do negacionismo exige, portanto, menos o aumento do fluxo de informações do que a reconstrução das instituições e práticas que tornam o conhecimento científico digno de confiança pública.