Com carinho e saudade,
Convidamos os parentes e amigos para a Missa de Sétimo Dia do nosso amado Luiz Henrique Lopes dos Santos, que será celebrada na sexta-feira, 01 de agosto de 2025, às 19h, na Paróquia Nossa Senhora Mãe da Igreja
Alameda Franca, 889 – Jardim Paulista, São Paulo – SP.
Nota de pesar
Hoje o Departamento de Filosofia perdeu um de seus maiores professores, Luiz Henrique Lopes dos Santos. Na verdade é uma perda de toda comunidade filosófica brasileira. Luiz foi professor do Departamento desde 1972, atuando nas áreas de filosofia da lógica e história da filosofia. Atuou também no Centro de Lógica e Epistemologia da Unicamp, foi membro do CEBRAP e ocupou posições na FAPESP.
Luiz foi professor de boa parte dos atuais docentes de nosso Departamento e nos deixa um legado de suas inesquecíveis aulas de história e de filosofia da lógica, seus escritos sobre o Tractatus, e inúmeras palestras, conferências e aulas inaugurais, em todos esses anos.
Luiz conseguia aglutinar refinamento filosófico, capacidade cirúrgica de argumentação e sabedoria para por as coisas nos lugares certos, de modo que elas nos apareciam como que em seus lugares naturais.
Ainda é cedo para avaliarmos o alcance de suas contribuições para a filosofia e de seu exemplo como professor desse Departamento. Que o tempo se incumba de impregnar todo seu legado naqueles que aqui ficaram com saudades do amigo, colega e mestre.
Edelcio Golçalves de Souza
27/07/2025
Poucos publicaram tão pouco. Pouquíssimos serão tão lidos e tão marcantes quanto ele. Sua introdução ao Tractatus Logico-Philosophicus é um dos melhores textos a respeito de Wittgenstein publicados em qualquer época, em qualquer língua. Não conheço um único especialista em nosso país que tenha a menor dúvida quanto a isso. Cada um de seus artigos tem a beleza de um relógio. Sua originalidade brotava da exigência de clareza, honestidade e precisão. Não ficava catando picuinhas na literatura secundária para ter entrada nas revistas. Dialogava com o filósofo, diretamente, fosse ele Aristóteles, Frege ou Wittgenstein. Frequentemente reconstruía, mas jamais desfigurava a arquitetura original. Tenho para mim que Frege lhe seria grato por mais de um argumento.
Foi meu professor. Escrevo essa palavra e enxergo nela a fisionomia do Luiz Henrique. Uma semelhança de família. É através dele que ela se liga a mim. Mais de uma vez, em aula, uso uma expressão sua, um exemplo, um modo de dizer ou de pensar, pois sinto que, sem esse elo, eu não consiguiria dizer algo que seja completamente meu. Mais de uma vez discordei dele em meus artigos, mas jamais chegaria àquela discordância se não tivesse à disposição o que ele escreveu.
Não apenas para mim. Luiz Henrique foi um modelo para toda a minha geração. Nele se realizava com nitidez um tipo filosófico. É difícil, porém, colocar essa imagem em palavras. Foi o mais continental dos analíticos, o mais geométrico dos metafísicos, um poeta das fórmulas. Apolíneo por vocação, dionisíaco nas horas vagas. Nele, esses opostos conseguiam não apenas se equilibrar com perfeição, mas se complementavam. Suavizavam-se mutuamente. Lutavam juntos. Acho que se amavam.
Um beijo, querido. Você foi um presente de Deus para todos nós.
João Vergílio G. Cuter
27/07/2025
Luiz Henrique Lopes dos Santos faleceu na manhã de hoje, em decorrência de complicações de um câncer de fígado, após um longo período em UTI. Todos que acompanhamos seus últimos momentos sabíamos da inevitabilidade do desfecho, mas não podíamos acreditar no que estava ocorrendo. Luiz Henrique faz parte deste grupo de pessoas que fazem o tempo, não dos que sofrem o tempo; Luiz Henrique é o próprio espaço em que está, não entra nem sai de um lugar. Tudo parece uma miragem, mas a dura realidade é que perdemos um filósofo primoroso, um pensador refinado, um amigo de todas as horas, uma pessoa que fez do humano a marca constante de sua presença entre nós.
Quem leu a descrição que Diógenes Laércio fez de Aristóteles reconhece de pronto naqueles traços o rosto de Luiz Henrique: os mesmos olhos afilados, o mesmo sorriso discreto e zombeteiro. Sobretudo, a impaciência com pensamentos mal formulados, a imperiosa necessidade de compreender as razões em pauta, a precisão nos termos e a elegância na expressão. Aristóteles não tocava saxofone e, possivelmente, não dançou certa vez com uma serpente; no resto, um é o retrato do outro. Luiz Henrique poderia ter sido tantas coisas – comentador de futebol, analista financeiro, ator de teatro, galã de cinema –, mas sua paixão estava na filosofia, em especial na lógica. Seus interlocutores prediletos foram Platão, Aristóteles, Leibniz, Frege, Wittgenstein, com os quais estabeleceu uma conversa exigente e sem rodeios, sempre à busca do que é último, sempre na volta ao que está na origem, o que jaz no princípio, o que é fundamento de tudo o mais. Era adepto tenaz do Schritt zurück: de Wittgenstein a Frege, de Frege a Leibniz, de Leibniz a Aristóteles e Platão, no horizonte dos quais se perfilam Parmênides e Heráclito. Luiz Henrique era filósofo, e filósofos são assim: o concreto se desvela no que é mais abstrato, mas não se mostra senão no constante retorno ao que está no passado como a origem presente de tudo.
Luiz Henrique iniciou seus estudos de graduação em filosofia no Departamento de Filosofia da USP em anos sombrios – de 1969 a 1971 –, e foi ao encalço de seu doutorado com a sagacidade que lhe era peculiar, obtido em 1981 com um estudo sobre a lógica em Frege, criando um círculo cada vez maior de amigos e já admiradores de seus talentos, sem jamais fazer concessão ao apelo das modas e à sedução do poder ou à contra-sedução do contra-poder. Já em 1972 era professor na USP, de onde se ausentou de 1975 a 1982 para lecionar na Unicamp, voltando então à USP para se aposentar em 2011; posteriormente, foi professor visitante da UFRJ. Em 2005, a USP foi palco de uma gigantomaquia filosófica que fez época: na banca, Carlos Alberto Ribeiro de Moura e seu conhecimento exuberante do pensamento de Leibniz em seu desenvolvimento histórico, obra por obra, carta por carta; no outro lado, o candidato à livre-docência Luiz Henrique destilava um Leibniz filosófico como que atemporalmente assaltado pelas questões centrais de lógica, metafísica, ontologia – em suma, a essência mesma do pensamento filosófico. A batalha entrou noite adentro e a USP nunca mais foi a mesma: a filosofia tinha feito ali sua morada. Em 2008 publicou uma análise fina e instrutiva sobre Frege (O Olho e o Microscópio: a gênese e os fundamentos da lógica segundo Frege). Quinze anos antes tinha publicado a tradução do Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein, precedida de um ensaio altamente esclarecedor, A Essência da Proposição e a Essência do Mundo. O tema de uma harmonia essencial voltaria ainda anos depois, acompanhado de uma releitura do Princípio de Plenitude em Platão e Aristóteles. O conflito entre necessidade e contingência constituía o pano de fundo sobre o qual girava sua reflexão, e um estudo detalhado do capítulo nono do De interpretatione de Aristóteles foi sua sequência natural. Nos últimos anos, preparava uma tradução ricamente comentada do livro VII da Metafísica de Aristóteles, livro metafísico kat’ exochên entre todos, pois é lá que se encontram as respostas, mas também as dificuldades e os impasses da doutrina aristotélica da substância.
Por três décadas, Luiz Henrique exercitou sua arte de avaliar projetos na Fapesp, para a qual forneceu os parâmetros para análise da atuação ética do pesquisador e do cientista. No meio de tudo isso, aulas brilhantes, exposições iluminadoras, orientações preciosas. Quem o viu em atividade não pode senão guardar dele uma memória inextinguível. No Brasil e no exterior, aliás: sua atuação como professor visitante da Ecole Normale Supérieure de Paris, nos anos 1998 e 1999, deixou lá marcas indeléveis. O que, penso, deve ser sobretudo salientado é que sua presença alçava toda reunião, toda discussão, todo debate a um outro patamar – o mundo das ideias, lá onde habita o filósofo. Pois Luiz Henrique era filósofo. E a perda de um filósofo cria um vazio, produz uma lacuna cuja dimensão mal podemos figurar. Tanto mais quando se trata de uma pessoa de grande humanidade e ética irretorquível como ele foi. É difícil dizer adeus, é muito difícil dizer adeus a Luiz Henrique, mais ainda quando se pôde partilhar de sua amizade. O adeus, porém, se impôs a nós neste triste último domingo de julho. Resta-nos, restou-me a memória, pois só há noite lá fora.
Paris, 27 de Julho de 2025
Marco Zingano
O Prof. Luiz Henrique Lopes dos Santos faleceu na madrugada de 27/07. A cerimônia de despedida ocorreu no crematório no Rio de Janeiro.