Valter José Maria Filho (1954-2026)

Nota de pesar

Valter José Maria Filho ingressou no Curso de Filosofia da USP em 1975. Fez Graduação, Mestrado e Doutorado, além de um Pós-Doutorado, sempre sob a orientação de Franklin Leopoldo e Silva. Conheci-o e com ele convivi, muito proximamente, por quase quarenta anos. 

Ao ingressar, encontrou uma Universidade bem mais elitizada do que hoje e decerto pouquíssimo preocupada com inclusão e acolhimento. Abriu seu caminho pessoal a muito custo e sofrimento, com garra e determinação. Abrir o próprio caminho tem suas vantagens: como nada lhe caiu do céu, sabia muito bem o que queria na Filosofia e nunca abriu mão disso. A Filosofia, para Valter, não era um conjunto de disciplinas ou uma possível profissão, mas sim parte de um personalíssimo caldo de cultura, que misturava sem cerimônia o popular ao erudito. Desinteressado pelas tecnicidades da pesquisa filosófica, tratava a sua própria de uma forma que provavelmente faria os mais devotos do rigor acadêmico torcerem seus narizes. Não que desdenhasse da ideia de rigor, pois a Filosofia, para ele, era coisa muito séria. Apenas não se rendia à nova lógica da pesquisa filosófica que ia se entranhando no Departamento, que começava a prescrever a produção em série, a especialização e a padronização do discurso. Para ele, a Filosofia nunca deveria perder de vista suas relação com as artes, sobretudo a literatura e o cinema (este, em qualquer gênero). Apreciava antes o insight e as grandes aproximações do que o argumento. Mas lia com profundidade, entre outros e sempre a seu modo, pensadores como Kant e Heidegger, seus favoritos, nunca perdendo de vista o que essas leituras poderiam trazer para sua fruição e compreensão da cultura (seu Mestrado reuniu Kant e Proust). Depois de algum tempo convivendo com ele, entendi a positividade que se encontrava nessa sua atitude, porque ela destoava e até mesmo contrastava com o novo figurino, um tanto pedante às vezes, do pesquisador rigoroso. Como eu também vivia esse momento, me sentia parte disso, mas ele me ajudou a olhar com alguma desconfiança para os excessos dessa mentalidade. Valter era uma lufada de ar fresco naquele ambiente predominantemente inclinado à técnica e, infelizmente, à magra reflexão. 

Além dos amigos, creio que a maioria dos que o conheceram gostava dele, porque sempre se apresentava bem-humorado, e era muito raro não encontrá-lo às sextas-feiras pelos corredores do Departamento, na Biblioteca ou na sala de nosso querido Ruben. Era piadista e gozador. Mas escondia por detrás dessa imagem uma pessoa solitária e magoada. Não deve ter sido fácil. Ficam, contudo, as boas lembranças, sempre divertidas. Só me resta agradecer a ele por ter sido meu amigo.  
 

Roberto Bolzani
02/02/2026