Claudemir Roque Tossato, 1961-2026

A comunidade filosófica brasileira está de luto pelo falecimento do professor Claudemir Roque Tossato, do Departamento de Filosofia da EFLCH da UNIFESP, e que durante muitos anos esteve ligado ao Departamento de Filosofia da FFLCH-USP.

O Professor Claudemir era um renomado especialista em Johannes Kepler e na história da astronomia moderna, tendo também publicado sobre a óptica kepleriana, Tycho Brahe, Thomas Kuhn e Descartes. Recentemente, havia finalizado uma tradução do "Mysterium Cosmographicum", o primeiro dos grandes tratados de astronomia e cosmologia de Kepler.

O Prof. Claudemir fez graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado no Departamento de Filosofia da FFLCH-USP. Antes de ir para a UNIFESP, lecionou na Escola Técnica Federal de SP, na Faculdade Anhembi-Morumbi e na FECAP. Integrou grupos de pesquisa no IEA-USP, o conselho editorial da revista Scientiae Studia, a Associação Scientiae Studia, e coordenou grupos da Anpof. Na Unifesp, foi coordenador do Programa de Pós-graduação em Filosofia por vários anos.

Publicou "O conhecimento científico" (Martins Fontes, 2013) e co-organizou os volumes "Filosofia da ciência e da natureza" (com Marcelo Carvalho, Fátima Évora e Osvaldo Pessoa Jr, Coleção XVI Encontro Anpof, 2015) e "Filosofia da natureza, da ciência, da tecnologia e da técnica" (Tossato et al [orgs], Coleção XVIII Encontro Anpof, 2019).

No trabalho do Prof. Claudemir, a história da ciência e a filosofia da ciência não eram vistas como compartimentos estanques, sem mútua comunicação: ao contrário, ele tinha uma consciência aguda da relação entre uma e outra. Ele sabia apreciar de que maneira a história da ciência coloca desafios para as epistemologias e as teorias da filosofia da ciência, e por outro lado, como a filosofia da ciência guia e equipa o/a historiador/a com ferramentas interpretativas aguçadas.

Sua interpretação do sistema de pensamento de Kepler, especialmente sob o ponto de vista metodológico, encontra-se resumida, por exemplo, no artigo co-autorado com o Prof Pablo Mariconda (falecido em 2025), "O método da astronomia segundo Kepler" (Scientiae Studia v.8, n.3, pp. 339-366, 2010). Aliás, a última publicação do Prof. Claudemir foi um tributo ao Prof. Pablo - mestre, colega e amigo de muitos e muitas de nós - co-autorado com Paulo T. da Silva e Eduardo Barra (Transversal, v.16, pp.1-5, 2025).

O Professor Claudemir era muito querido por colegas e alunos, e conhecido pela sua personalidade agregadora. Professor e orientador dedicado, tinha a capacidade de fazer críticas a um só tempo rigorosas e construtivas. Contribuiu com o seu conhecimento e experiência para um sem-número de bancas de mestrado e doutorado neste mesmo Departamento de Filosofia e em inúmeras outras instituições. E era um exemplo no aspecto humano - no que diz respeito à atitude necessária para contribuir para o ambiente tanto de um grupo, quanto de um programa e um departamento.

Sua partida deixa muitas saudades, e ele será lembrado com carinho e admiração por estudantes, orientandos, colegas docentes, funcionários e amigos.

Departamento de Filosofia
08/06/2026

 

Claudemir Roque Tossato, filósofo, historiador da ciência, amigo

Sento-me frente à tela para escrever, e dou-me conta de que é a primeira vez que faço isso sem que Claudemir esteja entre nós. É uma sensação muito estranha. E percebo que há muito a dizer sobre esse amigo de muitos anos, colega desde as cadeiras escolares, e colega de docência.

Conheço Claudemir desde o tempo do mestrado aqui no Departamento de Filosofia. A partir daí, convivemos durante décadas. Participamos de grupos, projetos, seminários e bancas juntos. Foi junto com Claudemir, em grupos integrados por colegas de geração, que fiz minhas primeiras viagens para apresentar trabalhos em congressos, tanto nacionais quanto internacionais.

Claudemir era minha primeira e principal referência no que diz respeito aos estudos keplerianos. Aprendi muito com seus artigos, seus seminários, suas palestras, suas explicações em conversas, suas indicações de leituras. Minha visão de Kepler e do seu lugar na história da ciência deve muito a ele e à nossa colega de geração, a Profa. Anastasia Guidi (UFABC).

Trabalhou durante anos em uma tradução do "Mysterium Cosmographicum" (1596), o primeiro dos grandes tratados de astronomia e cosmologia de Kepler - o tratado que contém a famosa figura dos poliedros inscritos e circunscritos às esferas. Essa tradução está finalizada, revisada e pronta para publicação. Seu artigo "Tradução e cientificidade" (Cadernos de Tradução, LELPraT-Unifesp, v.2, junho/2021, pp. 9-28) nos dá uma amostra dos temas que preocupavam Claudemir no trabalho de traduzir fontes primárias da história da ciência.

Suas traduções ricamente comentadas de cartas trocadas por Kepler com seus contemporâneos nos ajudam muito a constituir uma visão do ambiente científico e das correntes de pensamento da astronomia na época. (De Tycho Brahe a Kepler: Scientiae Studia, v.2, n.4, pp.537-565, 2004; de Kepler a Michael Mästlin, Scientiae Studia, v.1, n.2, pp.195-216, 2003). Com relação a Kepler, Claudemir não se restringiu à sua astronomia, mas também estudou suas concepções sobre a óptica e a visão no contexto da filosofia natural da primeira modernidade, expressas em "Ad Vitellionem paralipomena" (“Suplementos a Vitélio, contendo a parte óptica da astronomia”, 1604) e na “Dióptrica”, de 1611 - objeto de seus artigos "A função do olho humano na óptica do final do século XVI" (Scientiae Studia, 2005) e "Os fundamentos da óptica geométrica de Johannes Kepler" (Scientiae Studia, 2007).

Sua visão do pensamento de Kepler era, assim, multidimensional: abarcava o processo de obtenção das duas primeiras leis dos movimentos planetários — um fascinante “drama conceitual” e uma demonstração de virtuosismo matemático do astrônomo de Weil der Stadt (cf. “O método da astronomia segundo Kepler”, escrito com Pablo Mariconda, Scientiae Studia, 2010); o papel da noção de harmonia (tanto matemática quanto metafísica e epistemológica — tema presente desde a sua tese de doutorado, em 2003); o lugar de Kepler na construção de uma noção de força (dentro do pulsante labirinto de noções de força e inércia do século XVII); a relação complexa de Kepler com o copernicanismo (“De que maneira Kepler não foi um copernicano”, in: Carvalho & Figueiredo [orgs], “Filosofia do renascimento e moderna – XV Encontro Anpof”, 2013); o estatuto de uma “astronomia física, baseada em causas” (“A astronomia e a cosmologia de J. Kepler”, Primus Vitam, n. 2, pp. 1-9, 2011); a óptica e a matemática; seu entusiástico apoio a Galileu por ocasião das observações telescópicas...

Foi como uma tardia e incipiente resposta à inspiração captada em conversas com Claudemir que eu começaria a me interessar pelo que poderíamos chamar de o "Lado B" da obra de Kepler (para usar uma metáfora do tempo dos discos de vinil) - a ficção científica "Somnium" (O sonho, publicado postumamente pelo filho de Kepler em 1634), o tratado "Sobre os fundamentos mais seguros da astrologia" (1601), e dois tratados matemáticos - "Sobre a neve hexagonal" (1611) e "Nova estereometria dos barris de vinho" (1615).

Claudemir enfatizava sempre a importância dos instrumentos de observação e dos equipamentos de medição no desenvolvimento da astronomia moderna, no contexto da revalorização da técnica junto à filosofia natural dos séculos XVI e XVII. Conferia grande importância ao texto de Tycho Brahe "Astronomiae Instauratae Mechanica" de 1598, objeto de seu artigo "Tycho Brahe e a precisão das observações astronômicas" (Intelligere - Revista de História Intelectual, n.13, pp.92-112, julho/2022).

Sua personalidade tranquila e sua atitude sempre construtiva - manifestações de uma sabedoria humana profunda - o tornavam uma figura preciosa em qualquer grupo, instituição ou comunidade de que fizesse parte. Não era, porém, um mero conciliador, sem mais: quando necessário, colocava suas opiniões, embasadas em seus princípios, com clareza, mesmo que isso fosse contrário à posição de alguém. Mais de uma vez, quando me vi diante de situações complexas ou delicadas, me vi pensando: "O que o Claudemir faria nesta situação?". E, em algumas dessas vezes, ele me aconselhou, pelo que sou grato.

Lembro-me do seu gosto por Dostoievski, de sua inabalável paixão pelo Palmeiras, de seu senso de humor, sua empatia, sua suprema cortesia e elegância no trato com as pessoas. Era sempre um motivo de alegria sentar-se à mesa junto com Claudemir para conversar.

Pensando em Claudemir, não consigo tirar da cabeça as palavras que Pierre Restany escreveu em 1985 sobre Waldemar Cordeiro: "Esse homem excepcional era meu amigo. Tenho orgulho disso e lamento sua ausência que, no decorrer dos anos, se torna mais pesada".

Valter Alnis Bezerra (DF)
08/06/2026

3 semanas atrás

O Ministério da Educação divulgou nesta quarta, 20/05, o resultado da avaliação do Enade 2025 dos cursos de Licenciatura. O curso de Licenciatura em Filosofia recebeu o conceito máximo, 5. O Enade das Licenciaturas tem como objetivo avaliar a qualidade da formação inicial de professores ofertada pelos cursos de licenciatura em todo o país. O exame analisa, de forma padronizada, competências pedagógicas gerais e conhecimentos específicos de cada área. O Conceito Enade integra os Indicadores de Qualidade da Educação Superior e varia de 1 a 5. O Departamento de Filosofia congratula aos alunos participantes desta edição.

Ano 2025
Código da Área 3202
Área [...]
3 semanas atrás

Em cerimônia que ocorrerá em julho, a professora Marilena Chauí será contemplada com o Prêmio Anísio Teixeira de Educação Superior, na categoria Educação Superior. A honraria é conferida pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) que este ano celebra 75 anos, por contribuições relevantes para o desenvolvimento da educação e da ciência no Brasil.

Portaria: https://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-capes-n-206-de-7-de-maio-de-20…
Fonte: https://www.gov.br/capes/pt-br/assuntos/noticias/publicada-lista-de-ven…

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16 horas 51 minutos atrás