ALBERTO FERNANDO BLUMENSCHEIN-CRUZ

Curso
Mestrado
Título da pesquisa
Entre o natural e o sobrenatural: pelico, êxtase e Benandanti como operadores de saber liminar na primeira modernidade.
Resumo da pesquisa

Esta dissertação investiga o estatuto epistêmico dos fenômenos preternaturais na primeira modernidade (séculos XVI–XVII) por meio de três estudos de caso: o pelico, o êxtase e os Benandanti, tradição visionária camponesa do Friuli. A partir do diálogo historiográfico entre a micro-história de Carlo Ginzburg e a epistemologia histórica de Lorraine Daston, o trabalho desenvolve a noção metodológica de sensibilidade disciplinada — uma postura investigativa que combina a reconstrução histórica rigorosa com uma abertura atenta à instabilidade de seus objetos. A pesquisa situa o preternatural como categoria histórica que tensionou a dualidade entre o natural e o sobrenatural, instaurando um terceiro espaço epistêmico onde os efeitos eram empiricamente observáveis, mas suas causas permaneciam obscuras ou contestadas. O pelico surge como signo marginal, porém conceitualmente denso, historicamente associado ao destino, à vocação e à inscrição corporal; o êxtase, por sua vez, atravessa múltiplos regimes intelectuais — da teologia mística à patologia médica — funcionando como campo de prova para os limites da razão, da percepção e da experiência corporal. Os Benandanti ilustram como a experiência visionária pôde se tornar um foco de interpretações teológicas, jurídicas e folclóricas em disputa, revelando os processos pelos quais os objetos são constituídos como conhecíveis. Mais do que reduzir esses fenômenos a seus significados simbólicos, a análise acompanha os processos que os tornaram legíveis, rastreando suas transformações, reconfigurações e apagamentos nos diferentes regimes de saber. Dois achados centrais emergem: primeiro, que os modos materiais e experienciais de existência desses objetos moldam as formas de conflito epistêmico que eles suscitam; segundo, que a sensibilidade disciplinada constitui uma postura metodológica para lidar com objetos instáveis e liminares sem forçar sua estabilização prematura. Ao mapear esses objetos em suas condições históricas de inteligibilidade, a dissertação contribui para uma filosofia do limiar — uma epistemologia da instabilidade — que reconhece o papel gerador do inclassificável na produção do conhecimento.

Orientador
Maurício de Carvalho Ramos
Data da defesa
19/11/2025