Leonardo Oliveira Moreira

Curso
Doutorado
Título da pesquisa
Paradigma selvagem 1755-1762. Conceitualização e sistematização do selvagem em Rousseau
Resumo da pesquisa

De ordinário, a imagem que sobrevém instantaneamente ao espírito, ao se evocar o selvagem de Rousseau, é aquela duvidosa e ambivalente, porém prevalente do bom selvagem; imagem dada a hipostasiar o mito, concatenando a origem, na noite dos tempos, com a perpétua primavera justaposta à juventude da humanidade. Paralelamente, temos a postergação desse selvagem, tratado então como tema menor, secundário, ou matéria ínfera de uma heurística supostamente baratinada. Não obstante, a tradição filosófica testemunha a relevância do selvagem, seja com o relativismo cultural de Montaigne, seja com o pensamento político, antropológico e pedagógico de Hobbes, Leibniz, Locke, Voltaire, Diderot e tantos outros. O selvagem de Rousseau é exatamente o mesmo dessa tradição? Sua inferência do selvagem na origem é despropositada? Ou, de outro modo, deve-se consentir que a selvageria funciona aí como dispositivo de oposição ao fundamento do mesmo e à consequente negação do corpo? Não é por intermédio do selvagem real que a teoria do homem pode conceber dois tipos distintos do selvagem fictício, conjectural? Quais implicações, no registro político e histórico, podem ser extraídas da dissociação operada por Rousseau no entanto, inconcebível para Hobbes entre societas e civitas? Com o reconhecimento da sociabilidade dos selvagens e o elogio da forma que estes se governam, Rousseau não rompe escandalosamente com a tradição que estabelece o governo como fim último universal? A mitificação do selvagem não favorece a compreensão exígua da teoria da bondade natural? Estas e tantas outras questões serão respondidas ao defendermos a tese de que o selvagem não evidencia simplesmente uma imagem retórica (no Emílio), nem uma nostalgia primitivista (no segundo Discurso) ou um gosto pelo exótico (nas notas do primeiro Discurso e do Prefácio a Narciso); mas é conscienciosamente subsumido, o selvagem, na sistematização teórico-conceitual que integra a selvageria no plano histórico, social, antropológico e pedagógico. Emílio não é a quase-metátese do selvagem solipsista, mas a expressão final, bem refletida e acabada da teoria do homem: o novo homem natural é, com efeito, o produto da metamorfose final do selvagem. O selvagem do puro estado de natureza, o selvagem real do novo mundo, o selvagem ficcional da sociedade nascente e o semisselvagem Emílio constituem, de 1755 à 1762, o que chamamos aqui de paradigma selvagem

Orientador
Milton Meira do Nascimento
Data da defesa
09/12/2021